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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Prazer, sou deprimida




Recheado de expressões joviais que celebram as “delícias” da vida monitorada por medicamentos, texto apresenta depoimentos triunfantes de consumidores de antidepressivos

“Muito prazer, sou uma F34.1”. Assim a jornalista Cátia Moraes, autora de Eu tomo antidepressivo, graças a Deus!, lançado pela editora Record, manifestou o alívio que sentiu ao encontrar, na lista de sintomas elaborada pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10) da Organização Mundial de Saúde (OMS), a descrição dos transtornos de humor que “explicavam” sua depressão.

A frase não é tão irônica quanto parece. A depressão, que muitos analistas e sociólogos consideram o sintoma mais expressivo das contradições sociais do século XXI, tornou-se, com o aval da ciência, uma prótese de identidade para os sujeitos perdidos entre as referências voláteis do mundo contemporâneo.

Por isso mesmo, é uma doença com enorme potencial de mercado. Se os deprimidos incomodam por sua inapetência para a grande festa do consumo que anima a vida social no mundo industrializado, seu apetite por novas medicações vem alavancando as vendas da indústria farmacêutica, que crescem em torno de 22% ao ano no Brasil, e movimentam anualmente US$ 320 milhões de dólares.

Do ponto de vista da psicanálise, a depressão resulta do empobrecimento da vida psíquica, sobretudo no que se refere à possibilidade de enfrentamento de conflitos. O abuso de soluções medicamentosas acaba por ser cúmplice desse encolhimento subjetivo. Daí que o avanço mercadológico dos antidepressivos não corresponda a uma diminuição dos casos de depressão. Bem ao contrário: a supressão química do sujeito do inconsciente só faz aumentar o mal-estar. A introspecção, a tristeza, o recolhimento, a contemplação – a vida do espírito, enfim – são desvios que atrapalham o rendimento de uma vida cuja qualidade se mede por critérios de eficiência, competência e disponibilidade para a diversão.

Observa-se um estranho conluio entre a medicina e a doença: a auto-identificação do deprimido responde às novas estratégias de vendas dos laboratórios farmacêuticos. Folhetos explicativos, editados pelos laboratórios e pelo Ministério da Saúde, alertam para os perigos desse mal insidioso e orientam o leitor a detectar os primeiros sinais da doença, em listas de sintomas tão abrangentes que praticamente qualquer um pode se incluir nelas. A propaganda estimula o autodiagnóstico – a busca do medicamento é mera conseqüência.

O livro de Cátia Moraes arremeda esta estratégia. Admito, de boa-fé, que a autora não tenha escrito sob encomenda de nenhum fabricante de antidepressivos. Mas não faz diferença; o livro é uma peça publicitária. Escrito em estilo “pra cima”, recheado de expressões joviais que celebram as delícias da vida monitorada por antidepressivos, o texto alterna depoimentos triunfantes de consumidores de remédios com capítulos informativos ao estilo dos panfletos dos laboratórios farmacêuticos. A começar pela superficialidade: cinco páginas explicam o que é neurociência, dez páginas resumem o que são e como agem os antidepressivos, outras seis relatam os milagres da “eletroestimulação”, oito enumeram os “transtornos de humor ou afetivos” – as quais incluem praticamente todas as manifestações de dor psíquica –, e por aí vai.

O texto todo exala o entusiasmo dos convertidos. Os casos “clínicos” parecem inspirados nas antigas propagandas de fortificantes ou remédios para emagrecer, na base do “eu era assim/fiquei assim”. Como toda boa estratégia publicitária, a argumentação da autora não deixa de contemplar possíveis argumentos críticos. Noblesse oblige, a “psicoterapia” é recomendada como valor agregado ao tratamento medicamentoso, sem nenhuma consideração efetiva que relacione a depressão com o conflito inconsciente e o desejo. Para quê, afinal? Ao reduzir o sujeito a uma somatória de transtornos de comportamento, o desenvolvimento de medicamentos cada vez mais especializados, não só dispensou a psicanálise como tem provocado uma falência teórica no seio da própria psiquiatria, que abandonou a produção de teorias sobre as doenças mentais.

Maria Rita Kehl é psicanalista, autora de O tempo e o cão: a atualidade das depressões (Boitempo: em impressão), entre outros.

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