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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Psicologia Fisiológica

Sensação e Percepção
Deixando de parte o setor conativo da personalidade, em que as correlações psicofisiológicas exigiriam comentários mais extensos para se tornarem compreensíveis, faremos algumas considerações sobre a outra zona de contato com o ambiente: as funções intelectuais e, especificamente, o trabalho sensorial.
É através dos sentidos que o intelecto se liga, em direção centrípeta, com a realidade exterior, no duplo mister de corrigir as concepções e prever os fenômenos. Cada sentido contribui a seu modo para a noção do mundo externo e, dessa maneira, para a própria sistematização das ciências, em última análise. Daí o número de categorias sensoriais, que os autores em geral ainda fixam em cinco, muito embora a clínica e a pesquisa anatomopatológica já houvessem demonstrado, de há muito, que o tato em sentido lato compreende quatro sentidos. Blainville, citado por Souza, subdividia o tato em três categorias, desde 1829. Comte, secundado pelo eminente discípulo Audiffrent8,9, desmembrou do tato não só as categorias calorição e musculação — como Blainville —, porém também a eletrição. Existem portanto oito categorias sensoriais, e não cinco. O professor Agliberto Xavier as classificou segundo a especificidade, conforme a sinopse publicada por Souza e que data venia reproduzimos:

Quadro II — CLASSIFICAÇÃO FUNCIONAL DAS ESFERAS SENSORIAIS
Quadro sistemático de autoria do Prof. Xavier (J.F. Souza)

Em qualquer dessas categorias sensoriais o trabalho fundamental se desdobra em três fases e pressupõe a existência de três tipos distintos de estrutura: 1) órgão periférico, sobre o qual incide o estímulo, donde resulta a impressão sensorial; 2) elementos de condução — nervo sensorial, ou sensitivo — que efetuam a transmissão do estímulo; 3) núcleo cinzento sensorial, subcortical, que recebe o estímulo através dessas fibras nervosas, donde sensação propriamente dita. Entretanto, para que o aparelho sensorial preencha a finalidade que lhe é característica essas fases preliminares não bastam. A sensação não se torna consciente sem que sobre ela incida o trabalho especificamente intelectual, isto é, sem que haja percepção. Isto implica em mais dois tempos, pelo menos, e, em conseqüência, na extensão do trabalho a dois novos tipos de estrutura; 4) a condução da sensação através das vias sensitivas intracerebrais, isto é, córtico-subcorticais, e 5) exercício da função psíquica de observação, adstrita a determinadas áreas do córtex frontal. Assim, entre o estímulo periférico e a reação intelectual a ele teríamos os seguintes passos principais: impressão sensorial, imagem sensorial (sensação), imagem primária (percepção).
Na realidade, o problema psicofisiológico se mostra muito mais complexo, tanto pelo dinamismo quanto pelas estruturas envolvidas no processo. Primeiramente, como fenômeno intelectual essencialmente ativo, a percepção depende do interesse, ou seja da motivação afetiva que a determinou; e decorre da polarização do interesse para o estímulo em causa. Subentende, assim, a participação prévia das esferas afetiva e conativa da personalidade. No plano anatômico, devemos lembrar a concepção de Audiffrent8,9, hoje plenamente sancionada pela anatomia cerebral e pela neurofisiologia: estabelece que de cada núcleo sensorial partem dois feixes de conexão, respectivamente para a região intelectual do cérebro (córtex frontal) e para a região afetiva (córtex parietal, têmporo-parietal ou occipital, ou mesmo cerebelar). Discutir a identificação dos núcleos cinzentos em apreço, ou pormenorizar outros aspectos pertinentes ao assunto, importaria em transpor os limites dessa exposição. Procuramos porém resumir essa interpretação dinâmica com o esquema da figura 8.

Fig.8 — PROCESSOS PSICOFISIOLÓGICOS DA PERCEPÇÃO, NO CASO, VISUAL —
Esquema baseado no "Princípio de Audiffrent"

E. estímulo
I. impressão sensorial
S. sensação
A. reação afetiva, inconsciente, ante o estímulo
P. percepção
Em linhas de pontos-e-traços: vias de condução do núcleo sensorial ao córtex afetivo, no caso, tapete e fibras que vão à área 19;
Em pontilhado: ligação do núcleo com o córtex frontal, ainda não demonstrado anatomicamente
Em linha interrompida. vias occipitofrontais

Focalizamos aí o sentido da visão por ser o mais característico da organização humana e, em conseqüência, aquele cujos dinamismos se acham mais bem conhecidos. Segundo essa concepção o fenômeno da percepção propriamente dito consiste na fusão, ao nível do córtex frontal, entre o influxo carreado diretamente pela vibração do núcleo subcortical e o influxo que este último ali faz chegar através do córtex posterior. Desta série de processos decorrem outros aspectos que pode assumir a imagem primária: o da evocação, ou imagem mnêmica ou recortada, dinamismo no qual o estímulo inicial parte da região afetiva para a intelectual e daí para o núcleo subcortical correspondente; o da ilusão sensorial, em que a percepção é falseada afetivamente porque a ressonância afetiva ou emocional sobrepuja o estímulo direto concomitante; o da alucinação — imagem alucinatória — quando anormalmente o estímulo afetivo faz vibrar o núcleo subcortical ao mesmo tempo em que ativa a região intelectual — donde o não reconhecimento quanto à subjetividade da imagem. Nesta série de fenômenos psicofisiológicos, os dois extremos, percepção normal e alucinação, têm de comum portanto a fusão dos dois influxos sensoriais, direto e indireto; e apenas diferem — no tocante à dinâmica — quanto à origem do estímulo que deu margem ao reconhecimento. Ao que nos parece é a este aspecto distintivo que se refere Hughlings-Jackson, segundo a menção de Russell Brain18, o qual lhe endossa a interpretação: "As percepções normais, para Jackson, "simbolizam" um mundo de objetos físicos. Percepções ilusórias ou alucinatórias diferem das normais, não na qualidade perceptual mas no malogro (failure) do valor simbólico. Elas já não simbolizam de modo acurado, ou talvez de modo algum, os objetos físicos".
Buscaino21 descreve claramente a participação de vias intracebrais e principalmente a fusão entre imagens subjetivas e estímulos periféricos no fenômeno da percepção. Considera entretanto a retina como sede desta convergência, o que não nos parece defensável: "Durante o fenômeno da visão consciente os estímulos que sobem da periferia suscitam mais ou menos nitidamente as recordações, pondo em atividade os agrupamentos celulares e as vias nos quais se concretiza a latência das imagens; e determinam, através dos mecanismos centroperiféricos, variações até na periferia retiniana. Portanto, no decorrer do fenômeno da percepção a periferia retiniana recebe os estímulos do mundo externo e ao mesmo tempo os que provêm do mundo cerebral do indivíduo. A retina funciona, assim, quase como uma tela para aparelhos de projeção, numa de cujas faces se projetasse uma imagem enquanto outra se projeta na face oposta. O 'coincidir' de ambas as 'imagens' — a considerar-se não no sentido grosseiramente óptico no termo mas como complexo de processos nervosos particulares — leva ao 'reconhecimento' ".

Bibliografia

8. Audiffrent, G. – Du cerveau et de l’innervation – Dunod, Paris; 1869
9. Audiffrent, G. – Des maladies du cerveau – Leroux. Paris, 1874.
18. Brain, R. – Hughlings Jackson’s ideas of consciousness. Pags. 83-91 in Poynter, F. N. L., ed. The brain and its functions. Blackwell. Oxford, 1958.
21. Buscaino, V. M. – Neurobiologia delle percezioni. Ed. Sc. Italiane. Napoli, 1946.

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